Será que eu sei?

· Mestrado, Portfólio, Sem. 1/2012
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Será que eu sei?

Já dizia um desses filósofos que não me lembro bem qual seu nome que “o verdadeiro sábio é aquele que conhece os limites de sua própria ignorância”.  Será que ele estava querendo dizer que a sabedoria está intimamente ligada ao fato de você conhecer o quanto não sabe nada? Será? Não sei!

Como diz uma colega do mestrado, a Rosane, “a única coisa da qual tenho certeza é que não tenho certeza de mais nada”. A avalanche de informações e conhecimentos que tenho experimentado nestes últimos meses, quase ano, tem colocado em check as coisas que realmente acredito que sei. Fico questionando meus conhecimentos e me perguntando: será que isto é realmente assim?

Outro dia recebi um convite de um amigo, professor da Universidade Evangélica de Anápolis, cidade a 40 km de Goiânia, do curso de medicina, para dar uma entrevista aos seus alunos do sétimo período com o objetivo deles realizarem posteriormente um seminário. O tema do tal seminário era Sistemas de Informação em Saúde.

Até aí, tudo bem. Enviaram-me uma lista de vinte perguntas para que os respondesse. Na tentativa de inovar, disse que não faria as respostas escritas, mas que gravaria um vídeo com as questões respondidas e eles tratariam de retirar de minhas falas o que lhes fosse útil, não dando de forma mastigada as respostas. Como sempre diz uma professora que tenho, Drª Inesita, nada está ou é dado. Como fiel escudeiro de seus ensinamentos, tratei de colocá-lo em prática, não dando de “mão beijada” as respostas das perguntas.

À medida que ia lendo as perguntas e refletia nas respostas, me pegava questionando se realmente o que eu estava pensando sobre aquele assunto estava verdadeiramente certo e se era aquilo mesmo. Ficava assustado e pensava: meu Deus, será que eu esqueci isto?  Na verdade, para todas as indagações feitas pelos alunos e pensando nas respostas e nos conhecimentos já acumulados sobre o assunto, me cobrava sempre por uma referência científica que avalizasse o que eu estava dizendo, como se os mais de oitos anos de serviços prestados à Secretaria de Saúde de Goiás, nesta área de Sistemas de Informação, não estivessem valendo mais nada, pois precisava de um batalhão de autores por trás de mim que dissessem, me legitimando: “Isso, é isso mesmo!”, “Muito bem, foi eu quem disse isso”, “É verdade, eu disse isso ao citar fulano”.

Um outro professor, Drº Josué Laguardia, em um tom de crítica, claro, citou uma situação dessas em uma de nossas sessões de portfólio. Gostaria de dizer para ele que, deveras, eu tivesse este batalhão para me auxiliar neste momento de profundo questionamento dos conhecimentos que tenho. Enfim, acabei gravando o vídeo, postando no youtube, indicando algumas bibliografias e enviando o e-mail com estes dados. Tive uma resposta dizendo que havia ficado ótimo, que tinha sido muito claro e conciso (meu Deus, achei que tivesse sido prolixo pra caramba) e que o seminário seria ótimo. Jamais saberei se foram gentis ou verdadeiros.

Vocês não sabem, mas por conta do mestrado, acabei tendo algumas consultas com um psicólogo. Sim, verdade! Minhas consultas eram sempre às terças, no final da tarde e num lugar no mínimo curioso: no metrô. E por isso o chamo de “Psicólogo do Metrô”. Acredita que meu psicólogo já até pagou a minha passagem? Pois é!

Em uma das sessões, conversando com ele, pude expressar esta minha sensação de não ter certeza de mais nada e, de fato, questionar o que sei. Contei a história da entrevista, da angustia que estava sentindo por conta disto e de como estava sendo intensa minha busca pelo conhecimento verdadeiro, prático, sustentável e útil, mas, que estava sendo muito difícil.

Como um bom psicólogo, do metrô, claro, ouviu atentamente todas as minhas lamúrias e, ao término de minha falação, com um aspecto sereno e seguro do que iria falar, disse: “Mas, isso é o mestrado, este é o sentido dele, ele serve para isto mesmo. O seu grande barato é fazer com que você busque sempre um novo conhecimento e nunca se contente com o que você já sabe ou mesmo pensa que sabe […]. A propósito, esta sua consideração me fez lembrar de Jean-Louis BESSON. Em seu livro A Ilusão das Estatísticas: Estatísticas Verdadeiras ou Falsas? ele diz que as estatísticas não são absolutas, mas verdadeiras até que alguém as questione ou as coloque em check, e que não há estatísticas exatas, mas precisas”. Será que a minha busca pelo conhecimento se dará na mesma tônica que as estatísticas pela verdade? Será ele, o meu conhecimento, verdadeiro e preciso até que alguém, ou eu mesmo, o questione? Será? Não sei! Tenho a impressão de que precisaria de mais sessões.

Continuando, o doutor contou que teve uma professora que sempre dizia que o objetivo dela era desconstruí-los, com relação ao que eles supostamente sabiam, e construí-los novamente, mas, desta vez, de uma forma alicerçada e coesa. Se ela não conseguisse reconstruí-los, pelo menos se desconstruísse, já teria os seus objetivos alcançados. Interessante! Sabe que é exatamente assim que me sinto neste momento?

Acredito ter entendido o que o doutor dizia quando falou de “desconstrução”, pois este termo não denota destruição, mas sim a decomposição do conhecimento a fim de descobrir partes que estão escondidas e não reveladas. Assim, como dizia Derrida, aquilo que dizemos e ouvimos, e aqui acrescento o que estudamos e pesquisamos, só será de fato verdade, quando o vermos como algo incompleto e aceitarmos desconstruí-lo.

É uma pena quando chegamos à estação do Largo do Machado, pois é nela que meu Psicólogo salta. A sessão se encerra e somente na semana seguinte terei a opção de conversar com ele novamente. Então é isso, sigo tentando responder às minhas questões com uma única certeza: será que eu sei?

1 Comentário

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  1. Thaís.kazimoto

    Nossa, achei seu blog por acaso e adorei! Realmente muito bom! 🙂

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