Doenças Negligenciadas e Desenvolvimento Sustentável

· FTSCT, Mestrado
Autores

Aluno: Wisley Donizetti Velasco

Linha de pesquisa: Linha 1 – Informação, Comunicação e Inovação em Saúde.

Disciplina: Fundamentos Teóricos da Saúde, Ciência & Tecnologia.

Professores: Profª Drª Maria Cristina Soares Guimarães
Profº Drº José Carvalho Noronha

Doenças Negligenciadas e Desenvolvimento Sustentável

Doenças negligenciadas – DN são doenças que não só predominam em condições de pobreza, mas também corroboram para a manutenção de um cenário de desigualdade, já que representam um limitante para o desenvolvimento dos países. De acordo com a OMS, mais de um bilhão de pessoas estão infectadas com uma ou mais DN, o que representa um sexto da população mundial. São consideradas negligenciadas porque são as doenças dos esquecidos, de alta prevalência endêmica em áreas rurais e urbanas pobres dos países que possuem um rendimento médio baixo além de regiões de conflito e pós-conflito. Isto trás consequências sérias como a limitação do desenvolvimento intelectual, baixa produtividade dos trabalhadores e uma alta taxa de morbidades materna.

Mesmo o reconhecimento de que a Ciência e Tecnologia, no mundo, são requisitos para o crescimento econômico e social e não apenas uma consequência, o cenário de negligência, das DN ainda continua prevalente em nosso meio. Isto se dá por uma série de motivos, dentre eles, o detrimento da indústria farmacêutica em produzir medicamentos para estas doenças em virtude de não serem “atraentes” financeiramente e por suas características de produção apenas para países desenvolvidos, porquanto são comercializáveis e lucrativos. Outro agravante desta realidade, segundo Morel1, é a não existência de um sistema nacional de pesquisa que canalize recursos e esforços para as reais necessidades da população, pois, como é descrito no texto, 10% apenas do que é investido em pesquisa é destinado para 90% da carga de doenças globais1 e dentre estas estão as DNs. A ausência de políticas públicas de saúde, voltadas para a temática, configura-se, também, como importante agravante deste atual cenário

Ambos autores dialogam a respeito da importância que foi a advento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que prevê o controle das DN e melhoria das condições de saúde das populações pobres. Entretanto, estes objetivos estão marcados para serem alcançados em 2015 e, como destacaram, ainda precisamos progredir muito, principalmente no que diz respeito a estas doenças e as condições que favorecem sua proliferação.

Recentemente tivemos a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, ou Rio+20. Seu principal foco foi apresentar e defender um modelo de desenvolvimento que equilibra os avanços socioeconômicos com o aproveitamento sustentável dos recursos naturais. Além de que os benefícios do crescimento econômico devem priorizar a inclusão social e a proteção ambiental e fomentar políticas de erradicação da pobreza.

Embora não tenha se discutido, necessariamente, saúde pública nestes dias em que ocorreu o evento, cuidar do meio ambiente e erradicar a pobreza do mundo, são ações que estão intrinsecamente ligadas ao controle e, quiça, a erradicação das DNs que, como foi dito anteriormente, tem forte relação com as populações mais empobrecidas.

Nas palavras de Allotey2, a estratégia, de intervenções em DNs, precisa considerar o indivíduo dentro de seu ambiente social, cultural e físico, infraestrutura sanitária (diz respeito fortemente ao meio-ambiente), sistemas de saúde e acesso. Estes, no entanto, influenciados pela política e a economia dentro das estruturas Governamentais. Por sua vez, todos cosubstanciam pelos valores sociais que prevalecem dentro da sociedade como: equidade, inclusão, direitos humanos e etc.

Em seu discurso, na Rio+20, Boaventura Santos fala da importância de se ter conhecimento científico. De como é importante se apropriar de outros tipos de saberes, ou seja, um trabalho de cooperação, solidário, em rede, inter e transdisciplinar e sustentável. Em suas palavras, “…precisamos de uma ecologia do saber.”. Disse ainda que, “Se nós levarmos a sério o acesso universal à saúde e as condições que criam uma sociedade saudável, nós temos que ter uma reforma de Estado, uma reforma do sistema político, uma redistribuição de riqueza, um outro sistema de tributação e isso sim pode criar um mundo mais justo.”. Percebamos o quanto é convergente e dialógico o que Allotey proferiu acima e o que discursou Boaventura Santos na Conferência.

Como vemos, mais do que investimento em intervenções clínicas, precisamos, deveras, mudarmos a cultura vigente no mundo. Se quisermos combater as DN, precisamos somar significativos esforços para lidarmos com a saúde e a pobreza, concomitante com os fatores de marginalização na imensidão dos diversos ambientes sociais, culturais, econômicos, políticos e físicos em que vivem as populações afetadas, do contrário, continuará a existir pessoas e contextos negligenciados.

É imperativo afirmar, o que é confirmado pelos dois autores, que vacinas e medicamentos não solucionarão o problema da negligência ou da pobreza. Pelo contrário, podem aumentar ainda mais a distância que existem entre ricos e pobres. Assim, para conquistarmos o objetivo de melhorarmos a saúde destas populações vulneráveis é importante que pesquisadores, gestores e agências de financiamento, ampliem o foco sobre a abrangência da pesquisa em um sistema integrado de intervenções necessárias para enfrentarmos as DN. É importante frisar que o início da solução do problema não está, tão somente, na eliminação, ou mesmo, no controle destas doenças, mas, na saúde (em sentido ampliado), propriamente dita, desta população. Tal solução, para as populações negligenciadas, precisam ser sustentáveis. Esta não virá da erradicação de infecções, mas, a partir da erradicação da pobreza.

Referências

1 – MOREL, C. Neglected diseases: under-funded research and inadequate health interventions Can we change this reality? EMBO reports VOL 4 | special issue | 2003. Download do artigo.

2 – ALLOTEY P, Reidpath DD, Pokhrel S: Social sciences research in neglected tropical diseases 1: the ongoing neglect in the neglected tropical diseases. Health Res Policy Syst 2010, 8:32. Download do artigo.

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